Todo profissional ou estudante de direito já se deparou com a seguinte questão: o
Direito vai acabar? Yuval Harari, o historiador mais influente do século 21, discute
brevemente sobre essa questão no seu livro “21Lições para o Século 21”. Ele mostra que,
assim como várias outras profissões burocráticas, o direito está sujeito a ser substituído
pela automação e pela inteligência artificial. Contudo, Harari não deixa de apresentar
também a perspectiva contrária, de que, na realidade, essas tecnologias podem abrir um
novo universo de possibilidades para empreender no mercado jurídico.

É inegável reconhecer que há uma saturação no mercado. Na opinião do presidente da
OAB Nacional Felipe Santa Cruz, o mercado não tem a capacidade de absorver todo
mundo. Ou seja, com o processo eletrônico na Justiça, não é mais necessário que
alguém fique encarregado de cuidar da carga do processo ou o acompanhar no fórum.
Segundo o Censo Jurídico 2018, publicado pela ProJuris, as prioridades dos advogados
para 2019 são: estudar mais, trabalhar em contratos mais lucrativos, expandir o mercado,
evoluir a área de marketing, migrar de área de atuação e abrir um negócio próprio.
Nesse sentido, a figura do advogado tradicional, extremamente burocratizada,
está sendo substituída por um novo perfil: o advogado empreendedor. Dessa forma,
entende-se que o advogado 4.0 usa os avanços tecnológicos para inovar no mercado
jurídico e se destacar como profissional. Mas não só isso, o empreendedorismo jurídico
tem como meta identificar problemas enfrentados por advogados e encontrar soluções
tecnológicas.

“The Golden Age of The Legal Entrepreneur – Why Now and Why It Matters” (“A Era
Dourada do Empreendedorismo Jurídico, Por que Agora e por que é tão Importante?”),
artigo publicado pela Forbes, trata sobre empreendedorismo adentrando o mundo
jurídico. O objetivo do artigo é justamente o contrário, tratar de advogados adentrando o
mundo empreendedor. Porém, a revista faz uma comparação interessante sobre os dois
perfis, retratando o advogado como sendo altamente reativos, não inovadores, enquanto
empreendedores sendo uma figura visionária, sempre enxergando além e à procura da
próxima novidade.

Tendo em vista a importância do empreendedorismo jurídico, a equipe do Digital Lex
resolveu juntar as principais áreas que o advogado empreendedor deve levar em
consideração.

Ao introduzir o conceito de empreendedorismo jurídico no início da década de 2000, Padilha abriu um curso chamado Lexus em 2007 e se deparou com uma valorização surpreendente ao longo de quatro anos: em 2011, vendeu o curso por um valor cinco vezes maior do que o faria em 2007. Com o dinheiro da venda, criou seu próprio curso on-line, pensando que o momento que ele vivia era o início de um futuro 100% digital. Ele dizia para os advogados do seu escritório que o lugar dos advogados não devia ser apenas dentro do escritório, mas também fora daquele ambiente, de maneira a seguir uma linha de pensamento de que “quem não é visto, não é lembrado”. Assim, sendo o escritório apenas operacional, Padilha concluiu que os horizontes da advocacia deveriam ser levados para além das paredes daquele ambiente, concretizando um olhar digital que via a internet como um verdadeiro mundo de novas oportunidades para a área. O advogado deve ser uma espécie de “nômade digital”. Para exemplificar essa ideia, podemos pensar na maneira como as universidades estadunidenses estão preparando seus alunos para o Direito 4.0. De acordo com um artigo publicado no Jusbrasil por Bernardo de Azevedo e Souza, universidades ao redor do mundo estão investindo recursos em soluções tecnológicas para garantir que os próximos advogados consigam persistir no mercado jurídico pelo mundo.

Os Estados Unidos recebem um destaque por pelo menos 10% de suas faculdades de Direito já estarem ensinando noções de inteligência artificial aos seus alunos. Esses números ainda devem aumentar por conta do advento do Direito 4.0. Um artigo da revista Entrepreneur aponta para advogados que se tornaram empreendedores e, assim, iniciaram uma revolução no mundo jurídico. As ideias de saída da zona de conforto proposta por Rodrigo Padilha são exemplificadas aqui: o empreendedorismo jurídico e os olhares da advocacia voltados para a tecnologia levam a uma nova construção dessa área de trabalho, revolucionando os ambientes de escritório que já são conhecidos. Os escritórios do Direito 4.0 serão espaços com rápido crescimento e de grande visibilidade por utilizarem e se apoiarem na tecnologia de ponta. Outro nome notável que seguiu o caminho do empreendedorismo jurídico é o advogado Tomaz Chaves. Fundador do Juris Correspondente, uma plataforma para contratação de advogados correspondentes, e também da Dubbio, outra plataforma que aproxima cidadãos de advogados. Chaves começou a empreender bem antes das lawtechs se tornarem moda. Além dele, temos também Haley Altman, CEO e fundadora da Doxly.

Trata-se de uma plataforma automatizada de gerenciamento de transações e
documentos. A Doxly nasceu num momento em que Altman se viu trabalhando de
madrugada no escritório de advocacia em que era sócia, estando cercada de centenas
de pastas, procurando entre milhares de documentos por uma única página de
assinatura perdida, necessária para um fechamento multimilionário. Fundada em 2016,
a empresa de Haley Altman já arrecadou 2,75 milhões de dólares em fundos de capital.
A CEO disse ao blog Codex de Stanford Law: “Cada contratempo é uma oportunidade
de aprender e crescer.”.

Noory Bechor, CEO e cofundador da LawGeex, também decidiu seguir o caminho do
empreendedorismo jurídico. Ele era advogado em um importante escritório de
advocacia israelense e desempenhava a função de criar e revisar manualmente os
contratos diários. Convencido de que todo aquele processo poderia ser automatizado,
ele fundou a plataforma de revisão de contratos AI LawGeex em 2014. Com ela,
arrecadou 9,5 milhões de dólares em financiamento e conquistou clientes que incluem
nomes líderes nos Estados Unidos em varejo, finanças e seguros. Ele é um exemplo de
que, para todo advogado, todos os riscos devem ser mitigados. Faz parte da natureza
dos empresários correr riscos, porém, para advogados, tudo é confidencial. Sendo um
empresário, quanto mais se compartilha e mais conselhos se recebe, melhor ele se
torna.

Outros nomes que adotaram o empreendedorismo jurídico são Chrissie Lightfood, CEO
e fundadora da Robot Lawyer LISA (Legal Intelligence Support Assistant), e Andrew
Arruda, CEO e cofundador da Ross Intelligence. Lightfood já foi advogada, mas hoje é
autora de best-sellers, consultora, comentarista jurídica e de negócios. Sua criação se
trata da primeira advogada imparcial de inteligência artificial do mundo. Ela diz que
“estes são tempos evolutivos, revolucionários e transformacionais. Você precisa estar ‘na
onda’ de robôs digitais de IA”. Andrew Arruda, por outro lado, é advogado e muitas
vezes viu a balança da justiça pender a favor das pessoas ricas. Ele fez parceria com um
cientista da computação para criar um assistente jurídico de IA, e uma ferramenta de
pesquisa, a ROSS. Ele uma vez disse: “Se você está interessado em fazer isso, comece a
fazer algo com esse interesse. Nosso histórico jurídico nos fornece uma base fantástica
quando se trata de trabalhar duro e você pode realmente usar isso a seu favor.”.
Em conclusão, para sobreviver no mercado jurídico, o advogado deve deixar sua
natureza tradicionalista e adotar uma mentalidade empreendedora. Existem duas
maneiras de enxergar essa situação, encarando a tecnologia como um grande monstro
que vem para roubar seu posto (esses são os que não sobrevivem), ou enxergar a
tecnologia como sua ferramenta mais poderosa, podendo proporcionar soluções para
qualquer obstáculo jurídico (esses são os que sobrevivem).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

A importância de conhecer a LGPD. Poder Judiciário de Santa Catarina. Disponível em:
https://www.tjsc.jus.br/web/ouvidoria/lei-geral-de-protecao-de-dados-pessoais/aimportancia-de-conhecer-a-lgpd.


AZUL, C. Empreendedorismo Jurídico: 5 Ideias Para Abrir Seu Negócio. ContaAzul Blog.
Disponível em: https://blog.contaazul.com/empreendedorismo-juridico.


COHEN, M. A. The Golden Age of The Legal Entrepreneur – Why Now and Why It Matters.
Forbes. Disponível em: https://www.forbes.com/sites/markcohen1/2018/06/01/the-goldenage-of-the-legal-entrepreneur-why-now-and-why-it-matters/.


Como o Legal Design Thinking pode beneficiar o seu escritório de advocacia? Lawvision.
Disponível em: https://lawvision.com.br/legal-design-thinking-pode-beneficiar-seuescritorio-de-advocacia/.


Lawyer to Lawyer 59: Os Primórdios do Empreendedorismo Jurídico. Entrevistado:
Rodrigo Padilha. Entrevistador: Gabriel Magalhães. 15 de julho 2020. Podcast. Disponível
em: https://open.spotify.com/episode/3OU7TMmDvt3uBQHRKWAM9M.


MARCIANO, J. 10 Lawyers-Turned-Entrepreneurs Creating a Revolution in Law. Disponível
em: https://www.entrepreneur.com/article/295194.


PADILHA, Rodrigo. Empreendedorismo Jurídico: tudo sobre o futuro da advocacia.
Rodrigo Padilha. Disponível em:
https://rodrigopadilha.com.br/advocacia/empreendedorismo-juridico.


SANTOS, R. Lawtechs e novas ferramentas despertam interesse do mercado jurídico na
quarentena. Conjur. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2020-jun-13/lawtechsdespertam-interesse-mercado-juridico-epidemia.

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Bacharelanda em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Presidente do Legal Hackers Mackenzie, a liga acadêmica de Direito e Tecnologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Oradora e campeã da fase nacional da equipe do Grupo de Competição de Direito Ambiental (GCDA-MACK) pela 28th Annual Stetson…

Bacharelanda em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Presidente do Legal Hackers Mackenzie, a liga acadêmica de Direito e Tecnologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Oradora e campeã da fase nacional da equipe do Grupo de Competição de Direito Ambiental (GCDA-MACK) pela 28th Annual Stetson International Environmental Moot Court Competition. Semifinalista pela equipe do Legal Hackers Mackenzie da 2ª edição da CoDiTech Moot, Competição de Direito e Tecnologia organizada pela Associação Lawgorithm e sediada na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo/SP. Finalista pela equipe do Legal Hackers Mackenzie do Hackathon de Proteção de Dados e Legal Design da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Ex-Diretora Administrativa do Jornal Prédio 3, o periódico on-line dos alunos da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, com publicação de diversos textos autorais e participação ativa na divulgação de assuntos do ambiente acadêmico. Integrante do Grupo de Estudos “Cibercriminalidade e Metaverso”, da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Estagiária jurídica em Contencioso Digital do Opice Blum Advogados.